June 24
Dois poemas
DOIS POEMAS
Juntei-me um dia à flor da mocidade
partindo para Angola no Niassa
a defender eu já não sei se a raça
se as roças de café da cristandade
a minha geração tinha a idade
das grandes ilusões sempre fatais
que não chegam aos anos principais
por defeito da própria ingenuidade
a guerra era uma coisa mais a Norte
de onde ela voltaria havendo sorte
à mesma e ancestral tranquilidade
azar de uns quantos se pagaram porte
esses a que atirou a dura morte
diz-se que estão na terra da verdade
E vi a morte
de noite, névoa branca,
entre os frasco do soro
rondar a minha cama
era um trasgo
e como tal metera-se
pelas frinchas; noutra versão
coando-se através
dos nós da madeira
ou noutra ainda
imitando à perfeição
o gorgolegar da água
nos ralos eu tremia: eu tremia
cobardemente enquanto
ela raspava a parede
com unhas muito lentas
eu vi? ouvi a morte?
com toda a probalidade
e por instantes
era ela. luz negra.
tentado cegar-me
Assis Pacheco
Do seu livro - Respiração Assistida
Lisboa
28-IV-94